da RTP procede fora dos seus hábitos. Oficial cumpridor como sempre foi, o major Eanes estava sempre na Televisão às 9 horas da manhã, quase se podendo dizer que era ele quem todos os dias abria a porta. Nesse dia, porém, chegou com três horas de atraso, cerca de meio-dia e, uma hora depois, a TV começa a transmitir um filme de arquivo: um sacerdote falando sobre um tema dedicado às crianças...

4.5.2 - Como toda a gente sabe, quando a aviação atacou o Ralis já a equipa da Televisão lá estava à espera para filmar - o que fez - bem como filmou tudo o mais que sucedeu ali na manhã de 11 de Março, incluindo o cerco ao quartel. Perante este facto concreto (a equipa de filmagens da RTP previamente colocada no local onde ia acontecer um ataque de surpresa) somos levados a uma conclusão: o director da RTP está dentro do que iria passar-se. Resta saber se estava dentro do golpe spinolista ou se estava dentro da armadilha e contragolpe comunista. Não era possível naquela altura fazerem-se quaisquer filmagens de actualidades sem a autorização do director da TV. Esse director era Eanes - como soube ele que se iria dar o acontecimento do Ralis? Estava com os spinolistas? Ou estava com os gonçalvistas? Com um dos grupos tinha que estar, senão não poderia saber quando se realizaria o ataque.

4.5.3 - É lógico supor que, então, se apoiou em Vasco Gonçalves. O facto de ter sido o seu cunhado César Neto de Portugal quem bombardeou o Ralis pode justificar, no entanto, muitas das hesitações que ensombraram a sua actuação. Eanes tomou conhecimento do bombardeamento do Ralis por Neto de Portugal que imprevidentemente lho revelou? Ou soube-o por intermédio de quem encenara todo o espectáculo e armadilhara o golpe spinolista?

4.6 - Regras elementares

4.6.1 - É evidente que para um golpe militar rebelde resultar tem de cumprir pelo menos duas regras. A primeira é a da surpresa, por definição de golpe. Mas iniciado este, a segunda regra (por definição de rebelde) é a da propaganda imediata. Foi o que aconteceu no 25 de Abril (surpresa e propaganda através do Rádio Clube Português). Foi o que não aconteceu no "assalto ao quartel de Beja" em 1961 (surpresa e silêncio por inexistência de qualquer meio de comunicação ao País). O primeiro resultou, o segundo falhou. São apenas dois exemplos da História recente dos portugueses. O 11 de Março não podia fugir a estas regras. Sabe-se que muitos elementos comprometidos no golpe spinolista esperavam a emissão da RTP para saber o que se passaria em Lisboa: se em Lisboa o golpe estivesse em marcha, sairiam para a rua; de contrário ficariam quietos. Ora a televisão começa a transmitir às 13 horas um programa para crianças. A conclusão óbvia foi de que

em Lisboa nada se passava! Este procedimento foi manifestamente destinado a esvaziar e desmobilizar o movimento spinolista fora de Lisboa, e evitar que as populações do centro e norte do País, pelo menos, se entusiasmassem com a notícia da tentativa spinolista e viessem para a rua manifestar-se, dar-lhe apoio social necessário para justificação das acções militares... A realidade é que 80% dos spinolistas não se pronunciaram, não aderiram. Porquê? Porque o ânimo lhes esfriou na hora H ou porque a Televisão não mostrou que o Ralis estava a ser atacado em força?

4.6.2 - Nessa época, a lei dominante nas assembleias militares era de esquerda; o MFA era maciçamente de esquerda. E o 11 de Março foi considerado pelo MFA como um golpe reaccionário contra o 25 de Abril e todos os oficiais implicados no 11 de Março foram considerados reaccionários que queriam repor a situação anterior ao 25 de Abril. O silêncio da Televisão foi criticado no MFA porque, disseram, interessava mostrar que o contragolpe da esquerda estava a vencer, e interessava dar às forças civis progressistas a esperança de que a "reacção não passaria". Então, a Comissão do Inquérito - fazendo sua esta tese - acusa o director da RTP, tendo o Conselho da Revolução considerado válidas as razões apresentadas. Assim, o major Ramalho Eanes foi demitido da direcção da RTP por proposta da comissão.

4.7 - Inquérito arquivado

4.7.1 - O terror estabelecido a partir do dia 12 de Março exorbitou o zelo dos membros da Comissão de Inquérito que optaram pelo critério mais cómodo. Devem ter ficado muito surpreendidos quando viram o inquérito arquivado por ordem... de Otelo e Vasco Gonçalves. E devem ter ficado extremamente frustrados quando, logo a seguir, souberam que o major Ramalho Eanes fora requisitado pelo general Costa Gomes, Presidente da República e Chefe do Estado- -Maior General das Forças Armadas para prestrar serviço no seu staff. E nesta posição se manteve junto do general Costa Gomes durante todo o processo da descolonização, colaborando com o general Fabião, colaborando na estruturação da tristemente célebre "5.ª Divisão", etc., até ao dia 25 de Novembro de 1975...

4.7.2 - Isto são, evidentemente factos soltos. No entanto, para se compreender com correcção, todo o processo político português, do 11 de Março até hoje, há que tentar concatená-los: o major Ramalho Eanes não pode ser considerado como um anjo caído do céu. Ninguém chega às alturas a que ele chegou sem uma razão objectiva. Eu, por exemplo, fui convidado para participar no 25 de Abril e na Junta de Salvação Nacional porque comandava o Corpo de Fuzileiros Navais que eram, em 1974 uma força operacional muito importante constituída por

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