portuguesa é profundamente alterada mas, em termos de novo modelo de sociedade, nada ficou definido.

3.14 - A explicação do fenómeno está em que o PC não recebera a incumbência de estabelecer o regime comunista em Portugal, mas apenas a de tomar o poder por um período curto. Esta foi a estratégia do imperialismo soviético e que o PC realizou com eficácia e precisão. Por isso mesmo, alguns dos seus chefes receberam a medalha Lenine. Pelo menos Álvaro Cunhal e o prof. Magalhães Vilhena.

3.15 - Pouca gente conhece o Prof. Magalhães Vilhena, como também pouca gente ouviu falar de Mir Gomes. Eles são, no entanto, personalidades importantíssimas no aparelho do PC e, na sombra, através da autoridade que lhes concede Ponomarev têm tanta ou mais influência na estratégia comunista em Portugal como o Secretário-Geral visível do PC. São, aliás, das pessoas de maior categoria intelectual que o Partido Comunista tem, fazendo sombra política ao próprio dr. Álvaro Cunhal, podendo ser consideradas com uma linha de recuo técnico dos comunistas, caso seja necessário, um dia, sacrificar o actual "número um" do PC. Magalhães Vilhena é muito considerado cientificamente. Tenho muitas razões para supor que se à União Soviética interessar oportunamente dar uma volta euro-comunista nos estalinismos do Partido Comunista português, será ele o homem escolhido para chefiar tal viragem. Dizem-me que o actual Presidente da República o escuta muito em matéria de política externa e tenho fortes razões para supor que o Prof. Magalhães Vilhena é um dos conselheiros secretos do general Ramalho Eanes.

RAMALHO EANES

4.1 - É no 11 de Março que podemos, pela primeira vez, situar o major Ramalho Eanes. Situá-lo em ordem ao processo revolucionário e enquadrá-lo no primeiro facto concreto de extrema ambiguidade.

4.2 - Quando ocorreu o 25 de Abril o major António Ramalho Eanes era aparentemente um dos muitos oficiais que estavam a prestar serviço em Angola.

4.3 - A Junta de Salvação Nacional assumiu o poder e logo teve de se defrontar com um problema difícil: a comunicação social. Todos os ministros que se sucederam na pasta fizeram as suas tentativas para resolver o problema mas todos falharam redondamente, muito em especial no respeitante à Radiotelevisão Portuguesa, a RTP. É então que o general Spínola propõe um oficial que servira com ele na Guiné: o referido major Eanes. Este regressa assim de Angola para vir organizar os serviços da Televisão. Não podemos, porém, esquecer que o 25 de Abril foi também um conflito geracional dentro das Forças Armadas. O facto de o general Spínola ter proposto

aquele oficial que tinha servido com ele na Guiné não garante absolutamente nada, a não ser a espantosa capacidade do general para se equivocar. Chamou o major Eanes como também havia catapultado o major Fabião, entregando-lhe funções de extrema gravidade como as de Governador da Guiné!

4.4 - O curriculum do major Eanes foi então apresentado à Junta de Salvação Nacional, à Comissão Coordenadora e à Assembleia-Geral do MFA. Em todas essas instâncias foi aceite. Apenas havia um senão: não participara no 25 de Abril. Recordo-me muito bem de que eu próprio levantei a objecção e de que foi Otelo Saraiva de Carvalho quem avalisou o major Eanes. Ora como Otelo era, digamos, o porta-voz do 25 de Abril, dei por encerrada a questão. A incompatibilidade de se nomear um oficial que não tinha participado objectivamente na revolta militar desapareceu em face do aval de Otelo... Então o general Spínola chamou-o a Lisboa com urgência e o major Eanes começou imediatamente a elaborar o regulamento da Televisão. A certa altura, porém, surgiu mais uma cisão nos órgãos superiores da RTP - e o general Spínola propôs formalmente o major para director da RTP. Aí o assunto não foi tão fácil de resolver, porque já havia um compromisso da Comissão Coordenadora com outro oficial, que era da Marinha. Sem que eu tivesse prévio conhecimento, o general Spínola nomeia Ramalho Eanes, quando afinal, eu esperava que fosse nomeado o tal oficial da Marinha. Ao ter conhecimento da nomeação, apresentei aos elementos da Junta de Salvação Nacional, como era natural, as minhas objectes, salientado que o facto representava sério desprestígio para o oficial que estava indigitado para o cargo, informando que a Assembleia da Marinha se empenhara no assunto e me formulara perguntas muito delicadas. Mas o caso é que nada consegui, porque então foi Vasco Gonçalves quem fez a defesa cerrada da nomeação de Ramalho Eanes... Confirmada a nomeação, Ramalho Eanes tomou posse em Novembro, já depois da renúncia do general Spínola... e apesar dessa renúncia. Decerto por ter sido avalisado por Otelo e defendido por Vasco Gonçalves. É assim que, no 11 de Março, Ramalho Eanes é o director da Televisão. Não posso deixar de salientar o facto. A espectacular ascensão política do major Eanes é por demais misteriosa para que possam ser escamoteados os mais ínfimos pormenores da sua carreira. O apoio que recebeu do general Spínola é irrelevante: – o general Spínola tem uma catastrófica tendência para escolher mal os homens da sua roda. O ser apoiado por Costa Gomes, por Otelo Saraiva de Carvalho, por Melo Antunes e por Vasco Gonçalves tem muito mais importância: é isso que fundamenta o seu caminho; no fundo é isso que o conduz à Presidência da República.

4.5 - Estranha actuação

4.5.1 - No dia 11 de Março de 1975 o director

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