3.5 - A partir do 28 de Setembro o PCP avançou naturalmente para a conquista de outros objectivos. Derrotado Spínola e apoiado em Costa Gomes não lhe foi difícil ocupar mais posições no aparelho de Estado e na área do poder económico. O 11 de Março é o corolário lógico da falta de previsão e maturidade política de ala moderada do MFA. Senti então que me cumpria em primeiro lugar sustentar a minha própria posição para não ser substituído por quem servisse apenas os interesses dos comunistas.

3.6 - O Partido Comunista pretendia alcançar dois grandes objectivos: a conquista do poder económico e a descolonização. Mas a descolonização era o objectivo prioritário. E foi, sobretudo, para poder alcançá-lo que foi feito o 11 de Março. O Partido Comunista sabia que a conquista do poder económico seria uma luta difícil e aconselhou sempre o MFA a não dar passos impensados nesse sentido. Advertia, sobretudo, contra a precipitação a respeito das terras e das fábricas. Ouvi eu Álvaro Cunhal dizer: "Não se esqueçam que a Polónia ainda não fez a Reforma Agrária. O poder económico só se conquista com o auxílio das massas, numa revolução total".

3.7 - O 11 de Março não teve, todavia, como objectivo imediato a conquista do poder económico. O objectivo imediato do 11 de Março foi a descolonização de Angola e Moçambique. Ora este objectivo somente era possível ser alcançado desde que se tivessem apropriado em Lisboa do poder político. Por isso fizeram o 11 de Março, que começou a ser preparado desde a nomeação de Vasco Gonçalves para Primeiro-Ministro, após a crise Palma Carlos, em Julho, e depois começou a ter execução no 28 de Setembro, com a renúncia de Spínola e a ascensão do general Costa Gomes à Presidência. Destrancada desde então, a porta da descolonização ficou escancarada com o 11 de Março.

3.8 - Na realidade, porém, o 11 de Março desencadeou o assalto ao poder económico. Aliás, o PC tinha forçosamente de tentar dominar o capital, de assenhorear-se da Banca, quanto mais não fosse para evitar que o capital, o dinheiro, fomentasse, propiciasse contragolpes - que seriam sempre possíveis enquanto fossem financiáveis. Enfim, havia a necessidade de neutralizar a Banca... E é de supor que, para melhor controlo das massas trabalhadoras, haveria pressa em nacionalizar as empresas... Até para chegarem rapidamente e com facilidade à organização da Intersindical.

3.9 - O 11 de Março foi uma operação brilhantemente preparada pelo PC, com o auxílio dos agrupamentos da extrema-esquerda. O seu objectivo principal era propiciar a descolonização através da conquista do poder político. Mas não há poder político autónomo sem poder económico. As forças extremistas

encarregaram-se da conquista do poder económico, precipitando-a. Talvez por isso mesmo foi empreendida desordenadamente. Tanto nos gabinetes como na rua, nos campos e nas empresas.

3.10 - Logo a 12 de Março, uma das organizações do PC, o MES, apareceu com a proposta da nacionalização da Banca, que era, evidentemente, um dos passos prioritários a dar para a consolidação do poder político. Mas havia outros mais prioritários se assim se pode dizer, como o assalto à máquina do Estado, ao aparelho da administração, assalto que os comunistas fizeram de roldão, num impulso das bases que as cúpulas talvez não tenham podido controlar.

3.11 - O problema da nacionalização da Banca dividiu o Conselho da Revolução que foi muito mal informado a tal respeito por Mário Murteiro, que nele representava outro satélite comunista, o MDP/CDE. O Conselho hesitava, considerava os exemplos inglês e francês - que eram fenómenos reversíveis, além de limitados. E não estava de forma alguma consciente de que a nacionalização da Banca implicasse automaticamente a nacionalização de milhares de empresas onde os Bancos tinham posições maioritárias. Até barbearias ficaram nacionalizadas por arrastamento... Disso, o Conselho não tinha consciência, porque Mário Murteira não o esclareceu devidamente, decerto de propósito. No entanto, a nacionalização da Banca não tardou a ser decretada pois havia a consciência nítida de que seria muito difícil vencer, impor a revolução, se o capital, o dinheiro, continuasse na Banca privada, à disposição das forças não comunistas. Para manter o poder político e, pelo menos, ser possível iniciar a revolução comunista, era indispensável fazer a nacionalização da Banca. Isso foi compreendido e por isso a cúpula do MFA aceitou a ideia e deu cobertura à sua execução.

3.12 - O PC inicia então a revolução estalinista mas, na realidade, não foi capaz de a realizar. A "máquina" comunista foi ultrapassada pelo frenesim dos militantes. O que deveria ter sido feito sistematicamente, foi realizado atabalhoadamente. Em vez de um exército organizado que efectua uma ofensiva preparada pelo seu estado-maior, viram-se hordas levando tudo à sua frente tumultuariamente. E as consequências políticas e económicas da operação foram imensas, modificaram totalmente a sociedade portuguesa.

3.13 - O Alentejo é tomado de assalto pelos núcleos que o PC tinha organizado naquela província, atrás dos quais as massas rurais participam nos ataques aos latifúndios. Das empresas privadas são expulsos milhares de elementos válidos e começa esse tremendo surto de emigração de quadros, especialmente para o Brasil e que teve, para Portugal, tão graves consequências. A vida da sociedade

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