Comissão Coordenadora do MFA entendeu desde logo, com a concordância da Junta de Salvação Nacional, que era necessária a formação imediata do Partido Socialista. Por esse motivo pediu-se a Mário Soares que se reunisse imediatamente connosco. Como ainda estava em Paris, quem se apresentou foi o dr. António Macedo, do Porto, que estava velho e com ideias pouco claras sobre o que se passava. A sua presença não bastava. Foi preciso aguardar a vinda de Mário Soares. Após a chegada deste depressa as coisas se modificaram. Surgiu um " comissão organizadora" do PS e começou o diálogo entre socialistas e comunistas. Entretanto, porém, o PC havia aproveitado rápida e inteligentemente a falta de representação do PS junto do MFA. E antes ainda do 1°. de Maio aparece também o MDP/CDE, que logo vimos tratar-se de um satélite do PC. Quanto a outros partidos, nem ainda se falava neles.

2.7 - Penso que os comunistas só começaram a preocupar-se seriamente com o poder exercido pelo general Spínola quando os seus conselheiros quiseram dar um autêntico golpe de estado, em Julho, a que o PC chamou "golpe Palma Carlos". Golpe porque, pretendendo eleger por antecipação o Presidente da República, contrariava o Programa do MFA (além de contrariar a estratégia do PC). O Programa do MFA (além de contrariar a estratégia do PC). O Programa do MFA estabelecia a prioridade da elaboração da Constituição, na qual seriam estabelecidos os poderes e deveres do Presidente. Portanto, o golpe Palma Carlos foi, afinal, uma tentativa de cúpula, desesperada, contra a revolução que entretanto se pusera em marcha no 1.° de Maio.

2.8 - Pretendeu-se legitimar a investidura do general Spínola, por meio de referendo ou de plebiscito. O mais curioso é saber-se quem derrota essa tentativa: foram os civis que estavam no Conselho de Estado e não os militares. Os juristas do Conselho de Estado, nomeadamente a Prof. Isabel Magalhães Colaço, em exposições muito claras, analisaram a proposta do ministro-adjunto Sá Carneiro, sublinhando os perigos que estavam implícitos no caminho que era proposto. É nesse momento que o Partido Comunista começa a sentir que o general Spínola representava uma força potencial - e é a partir desse momento que Spínola começa a afastar-se visivelmente do MFA.

2.9 - Não sei se o Secretário-Geral do PC, Álvaro Cunhal, agradeceu então a inesperada ajuda recebida. Sei sim que o erro cometido em Conselho de Estado teve consequências trágicas e que, mesmo hoje ainda, nos não recuperámos dessa viragem essencial. Tudo o que se seguiu é o resultado frio dos outros pareceres jurídicos dos ilustres professores de Direito do Conselho de Estado, sem o que a História teria sido certamente bem diferente.

3 - O FALHANÇO DO 28 DE SETEMBRO

3.1 - A célebre assembleia realizada na Manutenção Militar foi marcada por uma manobra decisiva do general Costa Gomes. Por um lado, Costa Gomes convencera Spínola de que o perigo estava em Melo Antunes, afastando as atenções de Vasco Gonçalves; por outro, sonega as informações sobre as reuniões das assembleias do MFA controladas pelo CEMGFA. Em consequência, as exposições feitas a essa assembleia por Spínola e por Sá Carneiro foram um desastre. E o resultado foi que, contra a expectativa de Spínola, o porta-voz eleito - Vasco Gonçalves - não tardou, afinal, a suceder a Palma Carlos.

3.2 - Vasco Gonçalves imediatamente passou ao ataque, denunciando o "complot", atacando frontalmente Sá Carneiro e Spínola. A votação, depois, foi unânime. E Spínola deve ter compreendido que caminhava para uma confrontação, a curto prazo, com o MFA. Daí que tenha acentuado cada vez mais as suas denúncias à opinião pública e recebido com muito agrado o projecto da manifestação de apoio. Os dois pólos da manobra política ficam então bem definidos: o pólo spinolista e o comunista.

3.3 - Os spinolistas queriam provocar uma manifestação de massas que fizesse uma demonstração de base social semelhante às que as massas marxistas faziam. O objectivo era tornar possível o referendo a favor do general Spínola. Os comunistas decidem aproveitar a oportunidade, com o duplo objectivo de eliminar a hipótese desse "pré-referendo" que seria a manifestação, e de eliminar os spinolistas do MFA. Os spinolistas começam a manobra; os comunistas intervêm, aproveitam-na - e ganham. A partir desse momento ficam em posição de avançar com segurança. Os dias que precederam a falada manifestação da "maioria silenciosa", passaram-se no meio da maior agitação e descontrolo. As poucas pessoas lúcidas que se opunham ao projecto por realismo e pragmatismo e por sentirem que naquela altura a rua pertencia aos comunistas e às Forças Armadas já se tinham desagregado - eram acoimadas de comunistas pelos spinolistas e de fascistas pelos gonçalvistas. As cenas no Palácio de Belém entre a "entourage" do Presidente da República roçavam as raias do homérico - um clima de desespero envolveu o general Spínola impedindo-o de agir com lucidez na linha táctica mais adequada.

3.4 - Não houve manifestação; mas fizeram-se centenas de prisões. Decapitou-se concretamente a resistência aos avanços do Partido Comunista; o complexo de receio dos políticos face à aparente unidade indestrutível do Partido Comunista com o Partido Socialista e à sua capacidade de mobilizar as massas, paralizou os melhores que, como se viu depois, nem sequer eram bons.

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