2 - DO 25 DE ABRIL AO 11 DE MARÇO

2.1 - Nem tudo, ainda, terá sido dito sobre o dia 25 de Abril de 1974. Decerto, esta data continuará por muito tempo a ser objecto de informações e esclarecimentos bem como a suscitar comentários e interpretações. Mas o meu propósito não é analisar o 25 de Abril e muito menos historiar esse acontecimento. Não deixarei, contudo, de referir um pequeno episódio do qual poderia ter resultado a morte, logo à nascença, da revolta militar. Esse episódio passou-se comigo.

2.2 - Certo oficial de Marinha - o Comandante Alpoim Galvão - muito desembaraçado, inteligente e enérgico, além de valente, procurou o Comandante dos Fuzileiros - que era eu - solicitando os meios para destruir as antenas do Rádio Clube Português que estava a irradiar para o MFA, e através do qual se estabeleciam as comunicações, a contra-informação e o entusiasmo dos revoltosos. Esses meios pedidos por aquele oficial eram morteiros especiais e só a Marinha os possuia. Ele tinha o plano gisado e bem gisado: destruir as antenas com tiros de morteiro, que têm a vantagem de atirar encobertos e à distância de um ou dois quilómetros. Para realizar o plano tinha de ter acesso aos paióis mais exactamente ao paiol "C", considerado secreto. Pediu-me três morteiros, precisando apenas de três tiros para cada um: estava certo. Para o transporte já tinha um camião (que havia roubado, segundo me confessou). Mas, para executar o seu plano - que seria suficiente para liquidar o golpe logo à nascença - precisava de ordem minha para entrar no paiol "C", que estava à minha guarda. Mas não lhe fiz a vontade. Disse-lhe que tinha de obter uma credencial do Chefe do Estado Maior da Armada, Comandante Ferreira de Almeida, ou uma ordem do Ministro da Marinha, contra-almirante Manuel Crespo, os quais, não sei porquê, não lhe deram. Então ele procurou o Director do Material de Guerra, Comandante de-e-Guerra Molarinho do Carmo, que teve o bom senso de me telefonar. Pude, assim, evitar que o referido oficial tivesse silenciado o Rádio Clube Português. Se o tem feito, era homem para depois galvanizar algumas forças e virar completamente o 25 de Abril, pois não teriam sido necessários muitos efectivos para dominar os elementos revoltados. O golpe de estado militar poderia ter sido derrotado com relativa facilidade. Mas não foi, e assim se fez e se altera a História.

2.3 - Tenho, no entanto, de tomar essa data histórica como ponto de partida para o desenvolvimento dos factos que têm como objectivo outro dia 25 - o de Novembro do ano seguinte. Sobre o 25 de Novembro é que pretendo fornecer informações e esclarecimentos que permitam alicerçar a sua verdadeira interpretação. A interpretação que mostrará sem qualquer máscara os acontecimentos ocorridos nessa data e que explicará a posterior evolução da política portuguesa.

2.4 - Quando acontece o 25 de Abril, o povo compreende que o golpe de estado militar lhe restitui as liberdades essenciais mas a grande maioria da população não se apercebeu que iria principiar uma revolução. E não se pode estranhar que assim acontecesse porque, na realidade, a revolução só começou verdadeiramente no dia 1.° de Maio - por omissão trágica do general Spínola. Mal aconselhado, o general recusou-se terminantemente a presidir à manifestação desse dia. Foi a sua ausência que permitiu ao Partido Comunista começar a controlar as operações no âmbito do MFA. Se o general tivesse presidido à manifestação, que foi principalmente do povo de Lisboa que saudava a liberdade reconquistada, a história do Prec teria sido completamente diferente. É espantoso como um militar como o general Spínola, com todo um passado de luta anticomunista (guerra civil de Espanha, Legião Azul espanhola que combateu na própria Rússia, campanhas de África, etc.) tivesse ficado, logo após o golpe militar dos capitães, completamente enleado acerca de como devia actuar com os comunistas. Cheguei a ouvi-lo dizer que pensava convidar o dr. Álvaro Cunhal para formar Governo. A minha reacção foi talvez pouco ortodoxa, muito à minha maneira: disse-lhe "o sr. general está bêbedo!". De qualquer modo, Álvaro Cunhal não foi chefe de Governo mas Ministro de Estado. Porquê? Porque Spínola queria agradar aos capitães na euforia em que se encontrava. Todos insistimos com ele, com firmeza, para que fosse presidir à concentração popular do 1.° de Maio, e que se previa espectacular, enorme como foi, mas que muito pouco tinha a ver com uma homenagem directa ao Partido Comunista apenas seis dias após um golpe militar que apanhou todos de surpresa. Mas Spínola recusou. E Álvaro Cunhal transformou a concentração popular espontânea e festiva numa manifestação de apoio ao Partido Comunista. O que a Televisão mostrou ao País forma centenas de milhares de pessoas a aplaudir o chefe comunista. Onde estava Spínola que o cidadão comum, agarrado à Televisão por esse País fora, pensava ser o chefe da revolução? Não estava lá mais ninguém capaz de sombrear a imagem de Álvaro Cunhal.

2.5 - A partir desse dia - o 1.° de Maio de 1974 - o Partido Comunista dispunha "objectivamente" de uma base social de apoio que impressionava o MFA.

2.6 - A verdade é que o PC, na área civil, estava sozinho, era a única organização política que então existia em Portugal, pois os outros grupos ideológicos nem sequer conseguiram constituir delegações que se revestissem de alguma legitimidade. O MFA rejeitou todas as delegações que se apresentaram nos dias 26 e 27 de Abril, por falta de legitimidade; uma única pôde ser reconhecida como válida: a do PC. E nisso não houve opção de carácter político; foi uma questão técnica, puramente técnica. Os comunistas tinham legitimidade de representação; os outros, não. A

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