1.8 - "Não entrei no MFA para o demolir por dentro. Entrei convicto de que prestava um serviço ao meu País. Mas quando verifiquei e me assegurei de que o compromisso do MFA para com a Pátria não era cumprido, entendi, apesar de tudo, não dever sair. Se o tivesse feito apenas teria facilitado a tarefa dos que - a coberto do Programa do MFA - pretendiam o assalto ao poder absoluto e transformar Portugal numa república "popular" satélite do império soviético. Decidi então ficar e continuar "por dentro" do MFA. Foi a minha forma de luta. Hoje é muito difícil, senão impossível, contabilizar a luta surda ou "ruidosa" de cada um para travar naquela época, o assalto ao poder desencadeado pelo Partido Comunista português com a conivência dos militares de esquerda.

1.9 - "Se o Programa que me foi apresentado tivesse sido honestamente cumprido, ainda hoje o MFA merecia o meu aplauso. Mas não foi isso o que se verificou, pelo que nego a orientação que o MFA veio a tomar e rejeito as responsabilidades de um processo político cujas consequências sempre procurei impedir ou minimizar. Quis e quero servir a minha Pátria, mesmo que se torne necessário lutar como simples marinheiro. Recuso-me a ser almirante de um navio afundado. Recuso-me terminantemente a ser responsável pelo afundamento do meu próprio navio, que é esta Pátria que eu amo e que é minha, tão minha como de qualquer outro Português verdadeiramente patriota.

1.10 - " O 25 de Abril teria libertado a nação na medida em que poderia ter aberto novos horizontes, novos caminhos planetários da grandeza de ser português, criando novos estados soberanos mas unidos pelo humanismo cristão e pelo património cultural e material cimentado ao longo dos séculos. Cimentado com a argamassa feita de sangue, de tristezas e de alegrias, de grandezas e de misérias. Afinal feita do quotidiano. Um quotidiano que se arrastou por cinco séculos.

1.11 - "Tudo isto se quebrou em mesquinhez, em apagada tristeza, em íntima vergonha, em cínico oportunismo, em falsa dignidade, em vontade de morrer. Todo o orgulho de ser português da Nacionalidade, do português de Quinhentos, de 1640, da selva brasileira, das estepes africanas, do português dos trópicos, todo este orgulho de ser, de estar, de vencer e de convencer, se transformou na tragédia de ser português. Na tragédia que os nossos filhos, as futuras gerações, vão pagar pesadamente. Tudo isto em cinco anos? Deixo a resposta aos sociólogos, aos psicólogos e aos historiadores. Objectivamente, porém, foi em cinco anos.

1.12 - "É costume sintetizar a análise do processo revolucionário português - o Prec - pelas datas dos acontecimentos que ficaram profundamente marcados na opinião pública. Para alguns, a traição ao espírito do Programa do MFA começou com o chamado "golpe Palma Carlos", em Julho de 1974. Para outros foi o 28 de Setembro que marcou o desvio à pureza do 25 de Abril. Muitos ainda, pensam que o 11 de Março de 1975 dá início à escalada comunista para a conquista do Poder. A maioria cansada e ingénua, admitiu que o 25 de Novembro foi a libertação, foi o regresso à pureza do 25 de Abril, foi o impedimento da escalada soviética... Outros, tantos outros, pensam que a Constituição é o "salva-vidas" que pôs cobro a tantos golpes e contragolpes.

1.13 - "Hoje já não constituirá surpresa para muitos o que eu vou dizer. O que constituirá talvez surpresa é que seja eu a dizê-lo. Todas aquelas datas e acontecimentos que elas representam foram simples componentes de um só processo, com margens de flexibilidade rigorosamente previstas. A verdadeira escalada comunista começou - por omissão objectiva do general Spínola - seis dias após o levantamento militar. Teve o seu início no dia 1.° de Maio de 1974. A consolidação da escalada comunista, sob o ponto de vista ortodoxo da estratégia soviética, consumou-se no dia 25 de Novembro de 1975. A sua mais importante consequência foi a promulgação pelo Presidente da República "nascido" nesse dia, da Constituição concebida e aprovada pelos Constituintes do período Gonçalvista.

1.14 - "Realmente a Constituição de inspiração comunista estava condenada a morrer antes de ser promulgada: foi salva pelo 25 de Novembro.

1.15 - "O Partido Comunista Português, stalinista estrangeiro e antipatriótico, estava condenado e perder toda a sua influência na vida nacional: foi salvo pelo 25 de Novembro.

1.16 - "O desafio e a agressão à sociedade civil provocaram um estado de revolta popular que estava a atingir o seu ponto de explosão: tudo foi desmobilizado com o 25 de Novembro.

1.17 - "Consumada a descolonização em 11 de Novembro de 1975 com o seu último episódio da entrega de Angola ao MPLA soviético, tornava-se urgente um sedativo forte para o equilíbrio do psiquismo colectivo: esse sedativo chamou-se 25 de Novembro.

1.18 - "As figuras centrais do Prec tinham cumprido a sua missão. A descolonização estava feita: de futuro, o importante era consolidá-la no plano internacional, através de uma determinada política externa. a Constituição comunista estava feita: o importante era promulgá-la. A estatização da economia estava feita: o importante era mantê-la sem esterismos e dirigi-la com eficácia, com tecnocracia.

1.19 - "As conquistas fundamentais estavam consumadas. Mas como o haviam sido contra a vontade do povo real, como haviam traumatizado profundamente o estado de espirito da sociedade civil, tornava-se vital substituir as pessoas e os métodos.

1.20 - "As legiões romanas davam lugar aos colonizadores romanos. Os conquistadores davam lugar aos administradores. O 25 de Novembro encarregou-se disso. E surgiu o administrador António Ramalho Eanes. Mas não surgiu por acaso. Por isso chamei a este livro "25 DE NOVEMBRO SEM MÁSCARA".

Pinheiro de Azevedo.

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