8 - RAMALHO EANES - 2

8.1 - Em 25 de Novembro, como no 11 de Março, voltamos a encontrar Ramalho Eanes num enquadramento estranho e ambíguo, depois de já o termos visto, discreto e enigmático, assistindo ao lado de Costa Gomes às reuniões do Conselho da Revolução.

8.2 - É Ramalho Eanes escolhido pelo general Costa Gomes - depois de este ter a certeza de que o PC deixava os "rebeldes" entregues à sua sorte - para dirigir as operações militares no posto de comando do Regimento de Comandos da Amadora.

8.3 - Porquê Ramalho Eanes para a Amadora, para o próprio local onde existia a força real, numa posição hierárquica superior à do Comandante do Regimento? O Partido Comunista e o general Costa Gomes já não se lembravam do "caso da Televisão" no 11 de Março? Ou lembravam-se muito bem e sabiam melhor do que ninguém que era o oficial exacto para o local exacto? Era importante "travar" Jaime Neves como foi importante silenciar a Televisão? Mas a quem interessava travar Jaime Neves? Os dirigentes militares do 25 de Novembro desconheciam que a norte de Rio Maior, onde vivem dois terços da população, era um outro País? Desconheciam que a Constituição à espera de promulgação tinha sido concebida sob a coacção comunista? Desconheciam os resultados já consumados e desgraçados da descolonização? Desconheciam que o Alentejo se tinha transformado numa terra de apoio logístico para-militar à extrema- -esquerda internacional?

8.4 - É evidente que não desconheciam como se torna evidente que Costa Gomes nunca indicaria para chefe das operações militares do 25 de Novembro um militar que, no 11 de Março, como director da Televisão, tivesse feito o jogo spinolista.

8.5 - Então porque travaram as operações militares e não clarificaram a situação política? Obviamente porque os objectivos eram outros: eliminar os jagunços, manter o PC e o esquema marxista e, para acalmar o Norte e manter o equívoco era necessário que o PPD continuasse no Governo. Mas surgiu um problema: recebi um telegrama do Norte comunicando-me que o dr. Sá Carneiro retirava todos os ministros do PPD do VI Governo. Era a sua reacção lógica à traição do 25 de Novembro, uma reacção que provocava um problema muito grave, tão grave que me teria obrigado a renunciar ao cargo de primeiro-ministro. Mas não tardei a ser informado de que, por ordem do major Ramalho Eanes, dois oficiais tinham seguido para o Norte com um ultimato ao PPD para não retirar nenhum ministro do Governo. Não foi uma solicitação. Foi um ultimato. E assim veio a acontecer...

8.6 - É surpreendente mas foi assim. Quem era, de facto, Ramalho Eanes para enviar um ultimato a Sá Carneiro ?

8.7 - Naquele final de 1975 com o país inteiro desligado de Lisboa e mais ou menos em revolta pela esquerda ou pela direita, os poderes do Primeiro- -Ministro (como aliás, já então, os do Presidente da República) eram largamente ultrapassados pelos poderes do Chefe do Estado-Maior do Exército. Este, sem sequer me dar conhecimento, tomava as iniciativas políticas que muito bem entendia, metodicamente tomava conta do leme do Estado: colocava as suas pedras para que de nenhum modo o plano gizado no 25 de Novembro (acalmia político-social para salvaguardar o PC) pudesse ser alterado. Ignoro que argumentos usaram os enviados de Eanes para demover Sá Carneiro. Desde aí tenho verificado que, no momento exacto, quando o Partido Comunista em consequência do clima de tensão parece ir ser obrigado a recuar no que lhe é essencial - logo aparece o Presidente da República impondo as normas que mais interessam aos comunistas.

*

8.8 - As sombras que carregam o semblante do general Ramalho Eanes, são as sombras que carregam a sua estranhíssima ascensão na escala política portuguesa. Analisando bem o caminho que seguiu desde o 25 de Abril (nunca mais voltou a uma unidade) pode achar-se-lhe uma profunda coerência: nem por um momento Eanes renegou os princípios políticos despertos nele em Macau pelo comunista Arnaldo Matos. Na prática, durante e depois do gonçalvismo, quaisquer que fossem as razões subjacentes, toda a sua acção se caracterizou pelo apoio real aos objectivos do PC. Não está em causa prova documentalmente que Ramalho Eanes seja comunista o que, aliás, seria pretensão pouco realista. Só sabemos que é comunista quem se confessa comunista. Directamente, porém, Eanes nunca criticou o PC; publicamente elogiou-o numas célebres declarações ao "Washington Post" e, conforme declarações suas feitas em Bissau durante uma conferência de imprensa foi ele que cortou a marginalização política do Partido Comunista depois do 25 de Novembro, frustrando desse modo a vitória alcançada pelo povo português e permitindo a consolidação irreversível das "conquistas revolu-cionárias" que, neste momento, só o PC e o PS usufruem.

8.9 - Ramalho Eanes estava em Angola quando eclodiu o 25 de Abril. Como atrás afirmei, é chamado a Lisboa pelo general Spínola para fazer parte da primeira Comissão "ad hoc" encarregada de "auxiliar" a Impresa, Rádio e Televisão a enfrentarem em liberdade

PÁGINA SEGUINTE