Costa Gomes foi a seguinte: 1.° - Vasco Lourenço, na qualidade de Governador Militar de Lisboa; 2.° - Melo Antunes, conselheiro político do presidente, foi nomeado coordenador-geral; 3.° - Loureiro dos Santos como chefe das operações no Quartel-General; 4.° - Ramalho Eanes, como chefe das operações no posto da Amadora; e 5.° - Jaime Neves, como comandante do Regimento de Comandos. Seguidamente Costa Gomes declarou-se fatigado, acrescentando que iria recolher-se aos seus aposentos. A situação parecia simplificada - afirmou - e, referindo-se a mim, acrescentou: "O almirante fica a substituir-se. Vou descansar porque amanhã quero levantar-me muito cedo".

7.6.8 - Soube posteriormente que Vasco Lourenço não quis assumir a chefia hierárquica. Porquê? Nunca percebi. Como nunca soube porque essa chefia foi transferida para o major Ramalho Eanes, que não passava de um oficial subalterno da sala de operações, chefiando o posto da Amadora. Pelo menos aparentemente era assim. E isto é tão inexplicável como a sua escolha para Presidente da República. A menos que em toda esta maquiavélica estratégia que domina a vida portuguesa e que perturba os espíritos mais lúcidos, a lógica seja uma componente para desprezar sistematicamente, por desnecessária. O homem a promover ou a abater, o ponto de ruptura ou de consolidação, estão escolhidos prévia e secretamente, razão porque acontecem as coisas mais extraordinárias só possíveis num hipotético país surrealista. Mas a verdade é que acontecem e é forçoso, imperativo, arrumar o puzzle da política portuguesa... enquanto houver tempo.

7.6.9 - Há que salientar, no entanto e mais uma vez, a misteriosa ascensão de Eanes e cronometrar os acontecimentos.

7.6.9.1 - Costa Gomes só adere ao Grupo dos Nove depois de ter consultado uma alta personalidade do Partido Comunista.

7.6.9.2 - Depois disso estabelece uma cadeia de comando onde o quarto lugar pertence a Ramalho Eanes.

7.6.9.3 - A seguir, contra todas as regras, e aparentemente sem o terem consultado, altera-se a ordem da cadeia de comando - e aparece a chefiar as operações Ramalho Eanes.

7.6.9.4 - Precipita-se de cinco dias a eclosão do golpe e respectivo contra-golpe, e desmobilizar-se a insurreição popular gerada no Norte, salvando-se deste modo o Partido Comunista.

7.7 - Breve filme do golpe

7.7.1 - A par da sublevação militar, e em estreita colaboração com ela, as organizações da extrema-esquerda - inicialmente com o apoio do PC - esperavam conquistar ou impor o poder popular em Lisboa e nos arredores da cidade. Já aludi à acção do Secretariado Provisório das Comissões de Trabalhadores da Cintura Industrial de Lisboa. Vale a pena também prestar um pouco de atenção ao que foi a acção das empresas rodoviárias nacionalizadas. Viaturas das empresas Camionagem Esteves, Arboricultura, Carris e Grupo de Viação Eduardo Jorge foram usadas na movimentação político-militar a 25 de Novembro. Quem comandou a acção foram os dirigentes do Sindicato dos Rodoviários que retiraram 12 radiotelefones que se encontravam em armazém e que foram montados na Intersindical, no Sindicato dos Rodoviários e na 5.° Divisão - SDCI (Serviço de Detecção e Coordenação de Informações), todos sintonizados na onda-rádio da Empresa de Camionagem Esteves.

7.7.2 - Apontarei apenas a utilização de viaturas da camionagem Esteves no transporte de militantes dos partidos de esquerda; três viaturas pesadas da mesma empresa foram utilizadas numa barragem oposta aos Comandos em Monsanto; com outras tentaram estabelecer barragem em Almada, no Barreiro; em dias anteriores a 25 outras camionetas foram detectadas com material de guerra de Beirolas para a Polícia Militar. Além disto, no próprio dia 25 de Novembro vários autocarros e eléctricos da Carris foram desviados por pessoal estranho à empresa, militares e populares, para formação de barricadas.

7.7.3 - Outro apoio importante aos golpistas foi o dos órgãos de comunicação social. Assim, elementos militares do COPCON e do SDCI, com a colaboração de alguns trabalhadores ali em serviço, ocuparam - sem a menor legitimidade - a aparelhagem da Emissora Nacional e assenhorearam-se temporariamente das emissões, que apoiaram plenamente a conjuntura e incitaram as massas à acção generalizada.

7.7.4 - O Rádio Clube Português anunciou o golpe ao meio-dia, mas já antes dessa hora tomara partido pois se recusara, em determinada altura, a aceitar a orientação do CEMFGA sobre a divulgação de notícias relativas à acção dos paraquedistas. Por ter desrespeitado o estado de emergência declarado pelo Presidente da República, veio a ser encerrado.

7.7.5 - A RTP - Radiotelevisão Portuguesa - fez a 25 de Novembro uma emissão da responsabilidade do capitão Durand Clemente e do locutor António Santos que não podia ter sido feita apenas pelos militares que ocuparam a emissora. Essa emissão teve, de facto, a colaboração activa do pessoal

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