7.3 - A legalidade não podia aparecer como autora de um golpe. Desencadeada a insurreição, estavam criadas as condições para ser executada a manobra de contenção eficazmente planeada pelos militares do Grupo dos Nove. Contenção da extrema-esquerda e a contenção, como que automática, do sector oposto que se preparava para actuar a 30 de Novembro.... Eliminar os guerrilheiros e estabelecer a ordem sobre o que já estava consumado nos planos da descolonização, económico, social e jurídico. Numa palavra: "administrar" calmamente as conquistas efectuadas.

7.4 - Na realidade o corte das estradas em Rio Maior reflectiu-se nas outras estradas que davam comunicação para o Norte e o País ficou praticamente cortado em dois... Caminhava-se para um estado de insurreição geral, popular e militar, num sentido em Lisboa e noutro sentido, no sentido oposto, no Centro e no Norte... Mas com o 25 de Novembro nem a extrema-esquerda radical e ingénua conseguiu estabelecer a "sua" república popular, a qual seria extremamente inoportuna e prejudicial para a estratégia friamente programada pelo Partido Comunista, nem o Centro e o Norte do país, maioritários, liberais e nacionalistas, conseguiram modificar a imposição de um destino institucionalmente marxista, o que teria provocado à estratégia comunista um recuo dificilmente recuperável.

7.5 - O 25 de Novembro foi portanto, uma vitória para o Partido Comunista. Daí a frustração geral, uns por uma razão, outros por outra. Quem no entanto mantem as consequências dessa vitória, promovendo uma terapêutica que apenas cura os sintomas exteriores da frustração, sem contudo mexer nos problemas de fundo?

7.6 - Costa Gomes aguarda definição do PC

7.6.1 - Para mim, o 25 de Novembro começou na madrugada desse dia quando, informado da sublevação dos paraquedistas, telefonei para Costa Gomes e Melo Antunes. Combinei ir imediatamente para o Palácio de Belém, onde se realizou uma reunião plenário do Conselho da Revolução a que, se bem me lembro, não faltou ninguém; o último a chegar foi Otelo.

7.6.2 - Costa Gomes resolveu estabelecer um diálogo "flexível", controlado por ele próprio. Diálogo em que intervieram o capitão Costa Martins, o PC e dois civis que não pude identificar. Eu, como primeiro-ministro, não teria de me preocupar com as operações militares, mas sim com a gestão da vida administrativa do país.

7.6.3 - Cerca das 9 da manhã fez-se uma análise da situação, que demonstrou o seguinte: a Norte de Coimbra os paraquedistas não tinham qualquer hipótese de êxito; mas a Sul tinham boas possibilidades, se fossem auxiliados pela população. A situação estava muito fluida em Lisboa e no Montijo, mas segura no Norte do país. Pires Veloso, comandante da Região Militar, não tinha problemas militares no Norte e podia contar com o apoio da população civil. Mas haveria realmente necessidade desse apoio civil? Francamente, não. Pretendeu-se apenas contrabalançar o efeito psicológico dos grandes movimentos de massas que se preparavam no Sul, para que o golpe vencesse. Sempre a mesma ideia: não se devem empreender operações militares sem base e cobertura social.

7.6.4 - É curioso que essa foi uma decisão de Costa Gomes. Disse: "É preciso provar que os senhores" (o Grupo dos Nove) "estão com apoio social". Na realidade, até às 4 da tarde, Costa Gomes não estava nem com uns nem com outros. Ele era o chefe, equidistante, independente, árbitro... Até às 4 da tarde não tomou qualquer opção, dizendo que queria evitar confrontações entre militares. E, com esta atitude, pretendia dar tempo a que as forças envolvidas aparecessem à superfície. Não era seu costume optar antes de saber de que lado estava a força... Quanto a mim, a posição de Costa Gomes obedeceu sempre a princípios tácticos bem definidos e que aplicava conscientemente e sempre com eficácia.

7.6.5 - A partir das 4 horas da tarde, Costa Gomes resolveu pôr-se ao lado do "Grupo dos Nove" contra os amotinados, porque o Partido Comunista retirou o apoio à sublevação. Essa informação do PC foi-lhe dada telefonicamente na minha presença. Não sei se do outro lado do fio estava Álvaro Cunhal. Mas duvido que Costa Gomes aceitasse a informação telefónica por um intermediário. Então o general Costa Gomes ditou a sentença dizendo: "Os paraquedistas não têm apoio político e estão "arrumados" militarmente".

7.6.6 - Entretanto houve uma reunião militar em Belém, a que estiveram presentes o major Ramalho Eanes (que sempre estivera ligado a Costa Gomes desde o caso da RTP no 11 de Março) e Jaime Neves, o comandante dos Comandos. Não fui convidado directamente para essa reunião, mas à qual, evidentemente, podia ter assistido. Porém a minha posição de primeiro-ministro e simultaneamente Conselheiro da Revolução teriam dificultado a designação da cadeia de comando, pelo que resolvi não comparecer, deixando ao Presidente da República o encargo de estabelecer a cadeia hierárquica e definir as missões militares a executar.

7.6.7 - A cadeia de comando estabelecida por

PÁGINA SEGUINTE