6.12 - Nasce o VI Governo

6.12.1 - Então Costa Gomes propôs-me que formasse Governo. Perante os camaradas tornei a expor as razões por que não aceitava. A primeira foi esta: se tinha de ser um membro do Conselho da Revolução, não podia ser eu o primeiro escolhido, porque o Exército tem três vezes mais representantes do que a Marinha. Logo quem deve tentar formar Governo, em primeiro lugar, é o Chefe do Estado-Maior do Exército, que era o general Fabião. Depois havia ainda um grupo que ponderava como porta-voz oficial do Conselho da Revolução: o Grupo dos Nove, chefiado por Melo Antunes. Portanto, a seguir, devia ser Melo Antunes a tentar formar Governo. Só depois seria eu, visto que a Marinha está à frente da Força Aérea. E esta minha tese mais uma vez venceu.

6.12.2 - Fui eu quem propôs, portanto, que a ordem fosse Fabião, Melo Antunes, o Chefe do Estado-Maior da Armada e, depois, o Chefe do Estado-Maior do Exército, foi encarregado de formar Governo. Assim terminou a reunião de Tancos.

6.12.3 - O general Fabião não conseguiu realizar o seu intento porque os partidos não o quiseram para primeiro-ministro. Melo Antunes recusou. Enfim, Costa Gomes acabou por me encarregar de formar Governo. Os meus esforços foram bem sucedidos e assim nasceu o VI Governo Provisório.

6.12.4 - Ascendo a primeiro-ministro menos por efeito de uma opção política ou por manifestar inclinação por este ou por aquele programa, do que por ser Chefe do Estado-Maior da Armada e membro do Conselho da Revolução. Mas a situação em que o País se encontrava era de convulsão política e social.

6.12.5 - No Norte, desde Julho, havia autêntica ebulição popular, multiplicando-se já então os assaltos às sedes dos partidos da esquerda. Acontecera o caso da "guerra de Leiria" nos últimos dias de Agosto. Rio Maior já dava que falar. Constava que havia no Norte grupos civis organizados e armados. Um oficial, Eurico Corvacho, comandante da Região Militar do Norte, tinha ido à Televisão denunciar a existência do ELP - Exército de Libertação de Portugal -, fala de uma reunião em Salamanca, mostra uma fotografia, afirma tratar-se de uma organização terrorista. Em fins de Junho surge o manifesto do MDLP - Movimento Democrático de Libertação de Portugal - chefiado pelo general Spínola... Tudo isto eram condicionantes de uma situação explosiva, sem esquecer o processo da descolonização que provocava em muita gente indubitável comoção.

6.13 - As "comissões de soldados"

6.13.1 - A este panorama acrescia a indisciplina

que começava a manifestar-se nas Forças Aramadas e organização "Soldados Unidos Vencerão" - SUV -, controlada pelo Partido Comunista e que tinha por objectivo a destruição da hierarquia existente para a substituir por outra, de tipo revolucionário marxista.

6.13.2 - Posso aqui informar que o "pioneiro" das "comissões de soldados" na gestão dos quartéis foi Ramalho Eanes quando, ainda capitão em Macau, as promoveu com a ajuda de Arnaldo Matos, então miliciano na Guarnição Militar de Macau e, depois do 25 de Abril, Secretário-Geral do MRPP.

6.13.3 - Todo este conjunto de graves problemas levou-me a pôr duas condições, quando aceitei o encargo de formar Governo: que o PS fosse o partido charneira do VI Governo, e que me fosse dado o comando de uma força de intervenção totalmente independente do COPCON. Estas duas condições foram aceites com cerca de 48 horas de intervalo, porque o PS pediu dois dias para ponderar o caso, acabando por aceitar. Comecei, portanto, a dar os primeiros passos para a formação do VI Governo com consultas ao PS, e simultaneamente com contactos a generais e outros chefes militares para formar a força de intervenção, que veio a ser designada por AMI - Agrupamento Militar de Intervenção.

6.13.4 - Este AMI foi logo violentamente atacado pelos partidos de esquerda e até por elementos do MFA, que viam nele uma ameaça ao poder do então general Otelo. Ameaça que era real, porque eu tinha a convicção de que, subsistindo o poder do COPCON, o VI Governo nunca conseguiria governar e que, mais dia menos dia, surgiria uma confrontação militar.

6.13.5 - Decerto por ter concordado com esta minha convicção, Costa Gomes aceitou a designação do general Melo Egídeo para comandante do AMI e a atribuição de forças suficientes para que tivesse condições operacionais. As forças que escolhi eram todas especializadas: Comandos, Paraquedistas e Fuzileiros Especiais. Consegui que os comandantes mandassem duas companhias; dos Paraquedistas vieram as forças solicitadas, sem qualquer problema (não me recordo quantas unidades foram designadas); mas não consegui que a Marinha fornecesse os dois destacamentos de fuzileiros especiais requisitados. E este facto teve consequências importantes. Na realidade, se a Marinha tem cumprido a distribuição de forças ordenada pelo Chefe do Estado-Maior General e se o general Melo Egídeo tivesse podido começar a instrução da força de intervenção, muito provavelmente Portugal não estaria agora no beco sem saída em que se encontra.

6.13.6 - Com o COPCON num estado a que poderei chamar de "curto-circuito" por ter sido em parte esvasiado, a existência do AMI em condições

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