passavam pelas Bermudas, pelos Açores, por Cabo Verde... Mas a notícia, em Lisboa, não transpirou de um círculo muito restrito. Basta dizer que eu, então membro do Conselho da Revolução, não soube com antecedência que tropas cubanas iam para Angola. Verdade seja que não fazia nem nunca fiz parte da Comissão de Descolonização. Mas, evidentemente, bastantes souberam, e alguns souberam com larga antecedência e concordância, antes das primeiras forças cubanas terem desembarcado em Luanda. Entre esses, estavam a par de tudo Rosa Cortino e Vítor Crespo, que eram os alto-comissários em Luanda e Lourenço Marques e os dinamizadores de toda a acção... E o general Costa Gomes, obviamente.

5.9 - Melo Antunes

5.9.1 - Não incluo o major Melo Antunes entre os que venderam Portugal, entre os que se tornaram réus do crime de traição à Pátria. Mas, no fundo, na prática, a sua acção teve os mesmos resultados. Penso que acreditou - ingenuamente - que seriam possíveis negociações a longo prazo sobre a saída dos portugueses. Mas quanto à ida dos cubanos, concordou. Concordou para evitar que os sul-africanos entrassem em Angola, ou melhor, que chegassem a Luanda. Penso que Melo Antunes não seria um agente dos soviéticos, não pertenceria ao número dos traidores objectivos. Mas é um homem estranho, que tem uma tese complicada, convictamente terceiro-mundista. E ele, que tanto manobrou nos bastidores da descolonização, está persuadido que a sua acção foi meritória. Tem a convicção profunda de que a descolonização foi a coisa mais dignificante para Portugal e para os portugueses. Mas creio que começa a estar convencido que se praticaram muitos erros. Posição típica, aliás, dos homens de esquerda: os princípios estão sempre certos, são sempre certos; na forma de actuar é que pode haver erros e a acção é que é susceptível de correcções. Para Melo Antunes, a presença de tropas cubanas em Angola só poderá ter vantagens, na medida em que impediu a intervenção dos sul-africanos, racistas e "imperialistas". E os cubanos, não. São um povo desinteressado, vão auxiliar Angola no espírito de Che Guevara, como podem prestar auxílio a uma Colômbia, a uma Nicarágua. Não têm espírito imperialista. Quando os angolanos lhes disserem: "Já não precisamos de vocês. É a altura de voltarem para casa", - Melo Antunes acha que os cubanos não tardarão a sair, porque não são imperialistas.

5.9.2 - Esquece-se, porém, esqueceu-se sempre, de que os cubanos são um instrumento do imperialismo soviético. O mais subtil e o mais perigoso de todos os imperialismos. E portanto, na minha opinião, passa-se exactamente o contrário: a África do Sul não está em posição de ser imperialista. Pode ter um arranque, dois arranques, mas

fatalmente volta para trás. Até por lhe faltarem apoios internacionais. Se ataca é para se defender. Ao passo que os cubanos, não só são obrigados a transportar consigo a ideologia comunista como são, fundamentalmente, essencialmente, instrumentos do imperialismo da União Soviética. São quem faz o trabalho, são os seus mercenários. Melo Antunes comporta-se como um idealista completamente iludido, cego pelo seu terceiro-mundismo visceral. E a verdade é que Portugal, em termos práticos, está a caminho das estatísticas do terceiro mundo.

5.10 - Traição ao Acordo do Alvor

5.10.1 - A ida de tropas cubanas para Angola antes de 11 de Novembro, portanto antes da independência, pode ser considerada uma traição ao Acordo. Até Melo Antunes aceitou essa traição ao concordar com a ida das tropas cubanas para Angola. A tal ilusão, a tal cegueira em relação ao "imperialismo sul- -africano". Mas, de qualquer modo, considero que o Acordo de Alvor foi um erro completo em face do que as superpotências haviam acordado. Por isso Agostinho Neto me disse: "O Alvor é o maior disparate histórico que se vai fazer sobre Angola". Estas palavras mostram que ele já sabia tudo o que se iria passar. Sabia o que estava assente nas altas esferas mundiais. Sabia que Angola seria para o MPLA. Aliás, todas as personalidades angolanas - e não angolanas - que posteriormente estiveram em Portugal, condenarem o Acordo de Alvor. Todos afirmavam aquilo que os americanos já tinham percebido, isto é, que não é possível governar um país africano a não ser com o sistema de partido único. E diziam-me: "Vocês, portugueses, que conhecem a África como ninguém, que têm em relação a África uma visão e uma vivência ímpares, estão a cometer um erro político gravíssimo, que é querer inventar partidos políticos em África. Se vocês, portugueses, têm em Angola e Moçambique fortes movimentos nacionalistas, e um fortíssimo na Guiné, como não procuram impedir que eles caiam no bolso dos comunistas?".

5.10.2 - Na realidade, devíamos ter tentado aproximar-nos desses movimentos. Mas a ambição soviética foi mais forte e com certeza mais hábil. E do nosso lado não houve um estadista com dimensão e capacidade para resolver o problema. Anteriormente, os assassínios de Amílcar Cabral e Eduardo Mondlane, decretados pela estratégia soviética, dificultaram-nos essa possibilidade porque, com esses homens, teria sido possível haver entendimento. E com Agostinho Neto também, se tivéssemos sabido dominar o assalto comunista. Agora temos de esperar que as experiências marxistas ali em curso falhem e cedam o lugar a sociedades livres, com economias que admita a iniciativa privada, única forma de os portugueses poderem regressar como irmãos e ajudar a construir os novos estados africanos.

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